23 de out. de 2009

"Até onde eu me lembro,eu era a garantia..."
Com a lucidez dos embriagados,se reconheceram desde o primeiro minuto,apesar da incerteza intensificada dos dias que ainda estavam por vir.Eram apenas duas pessoas totalmente distantes,quando ele perguntou se ela conhecia aquela música.Sem pensar disse:“mais ou menos”.Ele ficou calado por alguns segundos,como se sentisse ofendido por ela praticamente ignorar sua canção favorita.Não passavam de dois estranhos,em diferentes geografias,vivendo a vida porque se acorda todo o dia (não porque se têm sonhos),que de repente se esbarraram por meio de sons e palavras.Não é simples explicar o que aconteceu,pois só quem já descobriu uma certeza que só se tem uma vez na vida, sabe como é terrivelmente bom e terrivelmente assustador amar o que foge dos olhos,do controle e da razão. E pensar que,quando aqueles dois perdidos se encontraram naquele lugar tão inesperado,tão cheio de pessoas que chegavam e partiam constantemente,ela estava tão “segura” em seu pequeno mundinho limitado,onde não existia espaço para encontros e desencontros e infinitas-esperas-de-não-sei-quem.Se identificaram pelas canções, pelo desalento, pelos doces e amargos do viver.O pavor do desconhecido terminou naquele instante:Um pouco febril,de pranto contido e sorrisos metade-tímidos-metade-tristes.Ambos só conseguiam pensar que,jamais imaginaram encontrar alguém que pudesse compreendê-los tão completamente.Não tinham nada,mas tinham tudo.Tinham um ao outro. No ar pairava uma espécie de embriaguez,quando um dia a canção parou(the end),ele pegou suas notas e partiu.Restou o silêncio e a amargura da espera,que a fez pensar todos os dias em muitas coisas,como tantas pessoas neste mundo,por algum motivo deixavam de viver.Muitas vezes,depois pensou em quantas vezes aquela música sugeriu coisas que sabia que não podiam ser.Questionava se alguém saberia exatamente o que quer.Chorava por coisas que não foram nunca. Hoje anda perdida em algum lugar,abraçada ao que sobrou de sua pseudo-alegria, morrendo por tudo,com o coração parado em algum lugar,onde se viveu o que jamais imaginou ter vivido.Está cansada de tanto tentar entender,e as dores causadas por seres,ironicamente,humanos.Vive em busca daquelas mãos,braços,e abraços.Procura em todos os lados,por aquele sorriso que esconde um desejo de amar bem disfarçado,para que ninguém veja e se surpreenda com a grandeza do seu coração.Tudo o que aconteceu ainda cansa,e a faz pensar se não seriam apenas cicatrizes que se levam quando se morre… Pois sabe bem que,não passamos de uma simples lembrança na memória daqueles que vamos deixar por aqui.

21 de out. de 2009

"Até onde eu me lembro,era você quem chorava..."
Uma pessoa,quando tá longe,vive coisas que não te comunica,e tu,aqui,vive coisas que não a comunica.Então,vocês vão se distanciando e,quando vocês se encontrarem,ele vai te falar,por cima,de tudo que ele viveu,e,não sei,vai ser uma proximidade distante.Não adianta,no momento que as pessoas se afastam,elas estão irremediavelmente perdidas uma da outra...Às vezes,quando ainda valia a pena,eu ficava horas pensando que podia voltar tudo a ser como antes.Oh Deus, que sereno inferno esse de lembrar o bom de antes, quando nem sabíamos que acharíamos bom um dia.E seria?Cuidado,o tempo mascara o duro!Não havia nada para fazer lá em cima, a não ser falar.E nós tínhamos tão pouca experiência disso,que falamos e falamos, durante muito e muito tempo,e entre inúmeras coisas sem importância,você disse que me amava,ou eu disse que te amava,ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas,bobas,insiginificantes.Porque nada modificaria os nossos roteiros.E decidi me poupar mais.Tem sido difícil.E não sei se há recompensa.Talvez,quem sabe,me sentir melhor comigo mesma...Não se preocupe com não-respostas ou longos silêncios.Sou a pessoa mais indicada para compreender esse tipo de coisa.Eu queria que não fosse assim, que não tivesse sido assim. Mas não consegui evitar. A semente recusava-se a vir à tona, eu nem sempre tinha tempo ou vontade de regá-la, e não chovia mais,foi isso o que aconteceu.Eu tinha escolhido assim, num remoto dia qualquer em que deixei de acreditar, não lembraria quando, e isso era para sempre,tanto quanto pode ser para sempre, o que por estar vivo tem um coração que bate, mas,imprevisto e fatal,um dia deixará de bater.Por não querer mais depositar esperanças em nada que pudesse vir de fora, já que de dentro nada mais viria.Acho que fiz tudo do jeito melhor,meio torto,talvez,mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei.
Seja como for,continuo gostando muito de você,da mesma forma,você está quase sempre perto de mim,quase sempre presente em memórias,lembranças,histórias que conto às vezes,saudade...Mesmo que a gente não se veja mais,penso em você,penso em você com força e carinho.Porque já não temos mais idade para, dramaticamente,usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca".Ninguém sabe como,mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida,das pessoas e das coisas.Já não tentamos o suicidio, nem cometemos gestos tresloucados.Alguns,sim -nós,não.Contidamente, continuamos.E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas,como "sei que vai passar".Esse é o nosso jeito de continuar,o mais eficiente e também o mais cômodo,porque não implica em decisões,apenas em paciência.É assim que as coisas são, e o fugaz delas é a sua eternidade,não no real,mas na memória de quem lembra.Ás vezes,eu sentia raiva,mas não dizia nada,só sabia repetir:Isso-passa-questão-de-tempo-tudo-bem!Eu te amei muito.Só não te dizia com certa frequência, como você também não disse,mas acho que você soube.As manhãs são boas para acordar dentro delas,beber café,espiar o tempo.Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos,porque são o que são e também nos olham,com olhos que nada pensam. Desde que você se foi,para que eu pudesse enfim, aprender a grande desilusão do paraíso,é assim que sinto:Quase sem sentir!A gente enfeita o cotidiano,tudo se ajeita.Menos a morte.Tô bem assim,bem indiferente.O coração,um cactus.Não me importo mais...
Eu queria te dizer uma porção de coisas,de uma porção de noites,ou tardes,ou manhãs,não importa a cor,é,a cor,o tempo é só uma questão de cor não é?Não era mais você:Eu amava alguém que não existia mais,objetivamente.Existia somente dentro de mim."Não-ter" pode ser bonito, descobri.Acho que foi o fato de você partir, que me fez descobrir tantas coisas!Às vezes me lembro de você.Sem rancor,sem tristeza.Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que,afinal,o tempo passou.Nunca mais te vi,depois que foi embora.Nunca nos escrevemos.Não havia mesmo o que dizer.Ou havia?Ah,como não sei responder as minhas próprias perguntas!É possível que,no fundo,sempre restem algumas coisas para serem ditas.É possível também que,o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas,e a gente continua a buscar,a investigar,e principalmente a fingir.Fingir que encontra.Acho que,se tornasse a vê-lo,custaria a reconhecê-lo.Na minha memória tão congestionada,e no meu coração,tão cheio de marcas e poços,você ocupa um dos lugares mais bonitos.Mesmo assim,chega um ponto que a gente cansa,que não quer mais saber.Na verdade foi tudo muito natural, como se um dia isso tivesse mesmo que acontecer,e exatamente dessa forma.Ah, mas tudo bem...Em seguida todo mundo se acostuma.As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade.Como é mesmo que minha mãe dizia?Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos,longe do coração.Pois é...E sem pensar em nada,sem nenhuma amargura,rejeição,rancor ou melancolia.Nada por dentro e por fora, além daquele quase-novembro,daquele sábado,daquele vento,daquele céu azul,daquela não-dor afinal...Foi quando eu senti,mais uma vez,que amar não tem remédio!

7 de ago. de 2009

“…Tenho me sentido legal. Mas é um legal tão merecido, batalhado…” Essa frase de Caio F. me define muito bem hoje. Faz um bocado de tempo que não escrevo:Por falta de tempo–O que é bom, porque significa que ando bem ocupada. E por falta de necessidade:Tenho mania de fazer da escrita minha terapia – escrevo pra espantar as dores, os temores, as frustrações – o que significa que ando numa fase boa, depois de seis meses seguidos no “limbo”. Esses dias, em meio a esse período de tantas mudanças, andei pensando muito nas pessoas que passaram pela minha vida nos últimos anos. Tanta gente. Tanta gente! É claro que penso nas pessoas a-d-o-r-á-v-e-i-s (Seres péssimos faço questão de esquecer). Lamentei o fato de alguns terem ficado "pra trás" (Amigos que se casaram, construiram suas famílias ou estão longe demais, preocupados com coisas importantes),outros continuam de alguma maneira por perto (Via e-mail,MSN,Skype,etc.).Recentemente, reencontrei alguns amigos de infância-adolescência e foi uma experiência muito boa. Ao mesmo tempo você descobre que muitas coisas mudaram, mas que outras permanecem exatamente iguais. Eu sou uma pessoa que se apaixona pelos amigos e confesso:A distância de algumas pessoas parte meu coração. É uma ferida que nunca se fecha. Em cada lugar que passei ficou uma lembrança, um pedacinho de mim. Se eu disser que nos últimos dias dos últimos, diríamos, três anos e meio, não teve um só dia que não acordei pensando em uma dessas pessoas, certamente muitos vão achar que é mentira. Mas é verdade. Existem coisas inexplicáveis que acontecem, que eu gostaria muito de ter resposta, mas infelizmente (ou felizmente) tenho que aceitar o mistério. Várias vezes por dia me peguei com uma cena sua na cabeça. Você entrou na minha vida,em algum dia de Novembro de 2005 e nunca mais saiu. E nesses dias em que andei pensando muito nas pessoas, que passaram pela minha vida nos últimos anos, me lembrei da sua insistência em ser minha amiga e da minha resistência em aceitar uma estranha.Me lembrei daquele dia em que, passei 3 horas sentada na escada daquele Aeroporto esperando você chegar,das músicas que ouvimos de longe –e de perto-da sua mão tão macia e bonita, do seu sorriso,do pote de café que ganhei,de você cantando feito maluca enquanto dirigia…Me lembrei também do dia em que seu avô morreu,e de todos aqueles dias tristes em que você mais precisou de um abraço, e que eu não pude fazer nada.Como poderia me esquecer dos momentos em que você entrava por aquela porta? E das manhãs que eu tinha que me despedir de você, sem saber se voltaria a te encontrar outra vez? Difícil. Sabe, aconteceu muita coisa nestes muitos dias em que eu não te vejo.Um pouco mais até, do que minha sanidade seria capaz de suportar. Você sabe, às vezes a vida é mais áspera do que supomos.Quando te conheci, imaginei que a narrativa da nossa história seria bem diferente disso tudo que foi até aqui.Embora eu acredite em Deus confesso que briguei com ele em muitos momentos. Brigava porque acreditava. E porque não entendia, como ele fora capaz de tirar você de mim. Eu nunca imaginei que essa distância sempre presente doeria tanto – e por tanto tempo. Nesse tempo que passou eu te abracei por lembranças e meu sorriso ficou assim, meio triste. Você, uma pessoa que nunca gostou de sentir-se presa, me prendeu pra todo um sempre no seu mundo. Mas agora, como eu ia dizendo no começo deste Post, eu “Tenho me sentido legal”. Depois de seis meses, eu voltei a dormir uma noite inteira sem remédios.Viver sem você, tem sido uma experiência ao mesmo tempo torturante e libertadora. Pensando bem em tudo que aconteceu até aqui, nos grandes e pequenos acontecimentos dessa trajetória, descobri que os melhores momentos foram os inesperados, não os planejados. Por isso estou aprendendo a não perder tempo tentando antecipar e planejar as coisas. Quero me dedicar apenas a viver. Se é impossível controlar, para que gastar tempo tentando? É a incerteza do que nos espera na próxima esquina o encanto da vida. Quanto ao que ficou na lembrança, isso não dá pra ignorar. Como tantas pessoas maravilhosas que caminharam comigo,você é parte da minha história. Agora eu sigo aqui, com minha merecida e batalhada alegria e, de alguma maneira, torcendo para que na virada de uma dessas esquinas da vida,um dia eu volte á confiar nas pessoas,como eu confiei em você.
"Porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio, nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – Nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse é o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência".(Caio F.)

30 de abr. de 2009

Passei dias sem digitar uma palavra que fosse, queria escrever, mas eram tantas coisas sobre as quais precisava falar, que desisti repetidas vezes. Hoje, sentei-me diante do computador para tentar escrever sobre:
A dor dos desencontros – o desajuste dos relacionamentos – a irracionalidade do comportamento humano – o conflito entre a ânsia de vida e a mesmice do cotidiano – um mundo de silêncios – as tentativas de recomposição de identidades fraturadas – os mistérios dessa complexa existência – problemas, depressões, fragilidades, desencantos que causam essa sofrência e denunciam um vazio infinito – a incerteza da segurança – o desejo de uma felicidade iluminada pelo amor – sorrisos aprisionados – o excesso de doçura da primeira vez – os dias que passaram – as infinitas despedidas – as pessoas que passaram e para sempre se perderam – a fome de amor - chorar por fora – chorar por dentro – o sentido secreto das coisas da vida – gritar muda – conseguir o impossível – faltas e ausências – a dura falta de algo que amenize a dor – aquelas quedas que constroem a nossa vida – os “apesar de” cheios de angústia e desentendimento – ser suave e selvagem – o amor pelo mundo que me transcende – a fatalidade da alegria – ficar pronta para alguém – olhares sonhadores, abstratos e vazios – sentimentos urgentes – a dor de existir – o enorme esforço de se sobrepor a si mesmo – essa pressa que corre por dentro – alguma coisa que precisava saber e experimentar – o que não estava sabendo e nunca soubera – conhecer a dor de não ver futuro e continuar existindo – gostar de ver as pessoas sendo – poder gastar algum tempo sendo, sem perder a vida toda.
Hoje, sentei-me diante do computador para tentar escrever sobre todas essas e outras coisas, mas há um grande silêncio dentro de mim e esse silêncio ironicamente tem sido a fonte das minhas palavras. E esse vazio de palavras, simplesmente traduz o desejo que cada dia não seja mais comum, mas extraordinário e indizível como a voz de uma pessoa calada. Queria poder escrever de forma direta, sobre tudo que se pensa ou se sonha, exercitar a minha alma.Transmitir não sei o quê – que por alguma decisão tão profunda, os motivos me escaparam. Transformou-se em algo indizível, em palavras escritas ou faladas.
Sim, é uma espécie de tristeza, mas não uma tristeza difícil, algo como uma tristeza de saudade (eu sou a saudade). Melhor seja não escrever nada. Li alguma vez em algum lugar que, é aconselhável “não indagar o mistério para não trair o milagre”, calar-se para não se perder em palavras. Mas, acho que em algum momento eu me perdi e agora é hora de me redescobrir. A redescoberta de si é de uma tristeza bonita. Hoje assumi a responsabilidade de ser eu mesma. Nesse mundo de infinitas opções, parece que -finalmente - fiz a melhor escolha.

22 de abr. de 2009

"I have one or 2 crazy moments a year.You it's every day. Even today theres a chance, of meeting another random person with you."
Mais uma dessas noites turbulentas e caóticas. A lot of crazy moments a year, almost every day. Quando você vê, a situação já mudou, está contra ou a favor de você, tudo depende do referencial. Um momento de loucura muda tudo, mas o melhor é a reflexão que isso pode te causar na manhã seguinte. Ressaca, sono e uma certeza. Um dia assim,uma manhã cinzenta,olho pra TV em off,a música ao fundo,as cortinas escondendo o restinho de sol. A preguiça, a vontade, o desejo. Se eu pudesse mudar tudo, ou ter o controle da situação…Se tudo fosse mais claro...Hoje,amanhã,sexta-feira e sempre. Incrível como a solidão me faz bem,e me mata aos poucos.Acabo de ver que,tem uma carta escrita há um ano atrás,e que continua aqui.O cansaço reclama. Resquícios de uma noite estranha. Sou tão confusa.Odeio quando me dizem isso... Não tente entender. Simplesmente vá. E seja feliz.

5 de abr. de 2009

Os dragões não conhecem o Paraíso...

Tenho um dragão que mora comigo.
Não, isso não é verdade.
Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo, nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinha neste apartamento, depois de sua partida. Digo "quase" porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (A aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor, da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor, para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo. Isso me pareceu gradiloqüente e sábio, como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.
Estou me confundindo, estou me dispersando. O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu - só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos, para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesma. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: A ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais segura, mais serena, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer, ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: Que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: Que seja doce, que seja doce, que seja doce, e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.
Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesma, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor, para se transformar numa grande chaga. Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada, entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo, ou não quero, ou finjo não poder decifrar. Ainda não comecei...
Queria tanto saber dizer "Era uma vez". Ainda não consigo.
Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confusa, dispersa,me parece um jeito tão bom ou mau, quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões. Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a ninguém, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos. Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (E isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: Talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - Que seja doce. Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinho banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão, ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira. Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.
Além de tudo: Eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quando perguntasse assim: "Mas então você só acredita naquilo que vê?". Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: "Quem só acredita no visível, tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos, de paredes invioláveis para o que não é visível". Ele gostava tanto dessas palavras que começam com In - invisível, inviolável, incompreensível, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio, era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: Molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias. Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência, por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - Nunca foi esse o cheiro dos dragões. A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas, que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher, dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões,esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas, quando deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem. Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de Abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.
Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - Amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso, parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles. Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio.Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer.E assim,a insônia,a falta de apetite me perseguiam... Porque não conseguia dormir, nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto.Por pura vertigem, nos dias seguintes, repetia quanto sentia saudade.Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ir ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais, que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas.A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia:Agora... agora... agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta, ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas, até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia. Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atenta somente à minha dor, que apodrecia também. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende? Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia, quando aquele cheiro de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordada, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim -Nunca via nada além, das paredes de repente tão vazias sem ele.
Só quem já teve um dragão em casa, pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes, espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: Nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco, de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - A esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é NADA. Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte, para que seu mundo cresça.Não estou certa disso.Coisas talvez um tanto primárias, como: Um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo. E para, quem sabe,os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar.
Não, não é assim. Isso não é verdade.
Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: A confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava, uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói, nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia. Quando volto a pensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela, procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas, que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e beleza, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesma - tão banal e sedenta - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz. As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim, aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: Quase sem sentir. Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel, onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: Nada disso existe.
Nada, nada disso existe.
Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me viva, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: Tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansada do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos, se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinha neste apartamento, no meio de uma Cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para eu-mesma, sentada, aflita e com frio nos joelhos do sereno.
"- Dorme, só existe o sonho.Dorme.Que seja doce."
Não, isso também não é verdade.

O TEMPO NEM SEMPRE CURA TUDO

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes é cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas…

4 de mar. de 2009

“Nós aprendemos aos poucos”,pensava. Com os olhos fixos no além, café na xícara queimando por entre as mãos, debruçada sobre a janela, olhava para o nada e pensava sobre coisas indefinidas. Com o rosto inundado de uma serenidade incomum, já podia dizer pra si mesma, com certo orgulho, que conhecia um pouco do mundo. Não, ela não falava de Países, Cidades, Culturas. Referia-se ao mundo que existe logo ali, dentro das pessoas. Pensava nas inúmeras vezes que tanta gente a olhou sem vê-la, em tantas ocasiões que a tocaram sem possuí-la. Ela sabia como ninguém que, mesmo longe, as pessoas podem enxergar o outro e estar ali também, no mundo delas. Porque o ver e o sentir vão além do mundo físico, depende de alma, de coração.
Debruçada na janela com seu agasalho Adidas, xícara de café já frio nas mãos e refugiada em seu mundo paralelo, poderia refletir sobre o tempo, a umidade baixa do ar, o frio. Mas não, tudo que conseguiu foi pensar em como podia chorar, toda vez que ouvia U2.Pois ela sabia, como ninguém, que memórias deliciosas e trilha-sonora-pop-rock-pra-chorar eram duas coisas inseparáveis e necessárias. Já o silêncio e distância não combinavam com sua biologia, mas aprendeu a conviver pacificamente com eles.
Com os olhos fixos no além, xícara vazia nas mãos, debruçada sobre a janela, ela olhava para o céu azul de Agosto, pensando no ontem, no amanhã, no agora, em músicas, filmes, vinhos, pernas, mãos, corpo, rosto, maxilar, dentes, cabelos, pele, pescoço,pelos, braços, abraços, mãos, costas, músculos, movimentos, respiração, afagos, suspiros, gostos, calor,e desejo. Que seja! A verdade é que “nós aprendemos aos poucos”, até o momento em que não existamos mais aqui, agora, ontem, um pouco antes, durante ou depois, não importa,mas sempre, sempre haverá a música, os filmes, as palavras, e o querer-ver-e-sentir-você-infinitamente…Pra sempre

27 de fev. de 2009

Pela janela, do lado de fora, passava-se de tudo: Pessoas, Cidades, Placas, Carros, Casas, Ruas, Árvores, Pedágios, Acidentes, Congestionamentos. Mas a única coisa que ela conseguia ver, era um céu resplandecente de fim de outono do lado de fora. Cochilava por um tempo e logo abria os olhos, e isso era a única coisa que via: Um céu resplandecente de fim de outono do lado de fora,momentaneamente serena, porque não havia outro jeito, se tudo já havia sido tentado, paciência."Ainda não foi desta vez",matutava. Do lado de dentro, apenas um silêncio. Aqueles silêncios de salas de espera, elevadores, funerais, despedidas.Sempre teve medo do silêncio, que fica depois de coisas mal acabadas, deixando a vida delicada demais, pesadamente delicada e silenciosa. Ela sabe que, é preciso muita paciência pra aprender a se movimentar dentro do silêncio do tempo, sem aquela sensação de amargura, de fracasso, de perda, de "pronto-acabô". Por alguns momentos sentia como se houvesse assim, uma espécie de esperança, alguma possibilidade de ser feliz,o que era quase obsceno, pois sempre viveu como se tivesse sempre a obrigação de ter sido ou tentado ser outra pessoa, com atitudes e sentimentos totalmente contrários aos dela. E aos poucos, começava a perceber que a dor existia, que uma hora ela sempre aparece e parece que nunca mais vai embora. Viajar, esquecer, romper os laços.Queimar os documentos, sair pelo mundo com uma mochila, sem deixar endereço, em busca de si mesma no melhor estilo "Into the Wild", ela tem assim, uma certa u-r-g-ê-n-c-i-a em substituir o que foi perdido.Porque não é capaz de deixar as coisas irem acontecendo. U-r-g-ê-n-c-i-a de reinventar cada encontro e apagar todos os desencontros, de vislumbrar o amor, as coisas simples, de viver com toda a sua perfeita e inconstante humanidade exposta, sem se preocupar com o mundo lá fora. Ela tem u-r-g-ê-n-c-i-a no olhar, porque sente que a existência é meiga, bela, porém sofrida e volátil. Ela ri de si mesma,poucos são capazes de rir de si mesmos, da sua personalidade melancólica-sentimentalóide,e dessa aflição de sempre querer muito o que não se pode ter. Enquanto olhava pela janela, do lado de fora,onde passava-se de tudo, do lado de dentro ela fazia uma oração.
Silêncio. Ela cochilou outra vez. Ao despertar, olhou pela janela e do lado de fora, o ponto de chegada. Calada, olhava para si mesma sem dizer nada, tentando não olhar para as circunstâncias, tentando acreditar que essa u-r-g-ê-n-c-i-a, de viver logo tudo o que tivesse a viver não era um defeito, mas uma maneira de não deixar sobrar tempo, para pensar nas dores desse viver, nas dores de existir sozinha. Nunca pediu mais do que a vida lhe pudesse dar, assim como nunca ofereceu mais do que dispusesse.Teve sempre plena consciência da sua humanidade. Parada atrás da janela, ela tem medo, se comove, mas se move. Decide então descer. Aos poucos vai caminhando, aos poucos começa a perceber que a dor existe, que uma hora ela sempre aparece, mas que um dia precisa ir embora. E do lado de fora, ela segue caminhando sob o céu resplandecente de fim de outono,sem dever absolutamente nada a ninguém, sem exigências, sem solicitações, mas com uma enorme admiração por si mesma...Pois sabe que o que tem, é seu.

25 de fev. de 2009

Aqui neste porto-não-seguro sem mar onde me refugio não adianta gritar HELP, compreende? É verão, muito calor, fico imprestável. Caminho muito, mas não vou a lugar algum. Não sou do tipo socialmente aceitável, talvez eu seja SOMETHING BETWEEN. Celine de “Before Sunset” e Charlotte de “Lost in Translation”. Há quase dois meses coloquei como papel de parede do computador uma imagem do “Eternal Sunshine” com aquela frase “You can erase someone from your mind. Getting them out of your heart is another story…”. Não sei por que andei tão obcecada por esse filme.Sem falar naquelas pessoas que insistem em apresentar um amigo-da-amiga-do-amigo-da-amiga que é “tua cara”. ANYWAY, voltando ao filme, nunca consigo ERASE SOMEONE da minha mente, muito menos do coração. IT SUCKS, mas tem gente que consegue estar presente em todos os acontecimentos e não-acontecimentos da minha pseudo-vida, mesmo depois de eu ter proibido – Imagina – qualquer espécie de pensamento, referência, rastro, qualquer coisa que me faça pronunciar – mesmo mentalmente – THAT PERSON. Ultimamente ando assim, com uma espécie de (???) sei lá, uma tristeza meio chinfrim, uma aceitação anêmica… Por que será que de repente ficou tão difícil respirar? Deve ser porque quando respiro profundo, ainda me dói aquele tumor em metástase conhecido como saudade. Eu só sei de uma coisa: Sentiria sua falta mesmo que nunca o tivesse conhecido. Mas tudo bem,quando penso em me jogar pela janela ouço Eddie Vedder cantando “Alive” e algo bom acontece.Ser desimportante é uma coisa muito péssima!

18 de fev. de 2009

Você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser:Até o fim de sua vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido:As coisas não voltarão a ser mais as mesmas, e você próprio já não será o mesmo.Lembrei que tinha lido em algum lugar, que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não tenho dor, mas aquela coisa daquela hora, que a gente estava sentindo, e eu nem sei se era alegria, também não usava máscara.Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara...Foi quando eu senti, mais uma vez, que amar não tem remédio!Vai passar,tu sabes que vai passar.Talvez não amanhã,mas dentro de uma semana, um mês ou dois,quem sabe?O verão está aí,haverá sol quase todos os dias,e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital".Pois esse impulso ás vezes cruel,que não permite que nenhuma dor insista por muito tempo,te empurrará quem sabe para o sol,para o mar,para uma nova estrada qualquer e,de repente, no meio de uma frase ou de um movimento, te surpreenderás pensando algo assim como ¨Estou contente outra vez¨... Podia esperar de qualquer um essa fuga, esse fechamento. Mas não de você..Se sempre foram de ternura nossas conversas e mesmo nossos desencontros não pesavam, e se lúcidos nos reconhecíamos precários, carentes, incompletos. Meras tentativas, nós. Mas doces.Por que então assim tão de repente e duro, por que?Não,você não sabe, você não sabe como tentei me interessar, pelo desinteressantíssimo!Tenho a impressão que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito. Sem se importarem se eu não queria mais ir. Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui.Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei, de não perturbar o seu equílibrio-Que é muito delicado. E também, de não perturbar o meu próprio equilíbrio - Que é tão ou mais delicado.Você sabe que de alguma maneira a coisa esteve ali, bem próxima. Que você podia tê-lo tocado. Você poderia tê-lo apanhado. No ar, que nem uma fruta. Aí volta o soco. E sem entender, você então pára e pergunta alguma coisa assim: Mas de quem foi o erro?Repito sempre:"Sossega,sossega...O amor não é para o teu bico!" Sem conseguir dizer, nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor.Engraçado, não gosto do meu quarto,das paredes, dos móveis, mas gosto demais das coisas que posso ver pela janela. Das coisas que estão fora dele, porque o que está aqui dentro eu acho muito parecido comigo.E eu não gosto de mim.Mesmo assim, bem no fundo, há coisas que são só minhas. E embora me assustem às vezes, é delas que mais gosto. Como essa vontade de acabar com tudo, que me dá de vez em quando.As palavras traem o que a gente sente!Sempre acabo me entristecendo com as coisas que escrevo.As verdades,porque as mentiras não entristecem.Não sei se será possível à gente escolher as próprias verdades, elas mudam tanto. Não só por isso, nossas verdades quase nunca são iguais às dos outros, e é isso que gera o que chamamos de solidão, desencontro, incomunicabilidade.Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas...

17 de fev. de 2009

Nos últimos tempos tenho criado teorias pessoais para aquelas coisas que não dão muito certo na vida. Já culpei o final do ano, já pensei em inferno astral pré-aniversário e já maldisse os anos ímpares. Tudo isso é um bando de besteira. Existem alguns textos, livros ou músicas que conseguem ter um efeito devastador em mim – no bom e no mau sentido. Clarice Lispector é um deles. A maneira que essa mulher escreve e narra devaneios psicológicos é algo que mexe com cada fio de cabelo da minha cabeça. E me influencia no modo de ver o mundo e na minha forma de escrever. Há tempos que não a visito. Essa semana, realizei uma belíssima aquisição. Do tipo que balança a nossa vida e que dá vontade de mostrar para todo mundo poder conhecer também. O Olho da Rua, mais novo livro da jornalista gaúcha Eliane Brum, é uma coletânea com as dez melhores reportagens dela realizadas para a Revista Época. Todas vêm com textos da Eliane, comentando os “bastidores das notícias”. O livro tem uma história, entre várias outras ótimas,que me chamou especial atenção. O inimigo sou eu. Uma reportagem na qual a jornalista passou dez dias em um retiro de meditação Vipassana.Algumas frases são muito bem feitas e eu quero compartilhar aqui com vocês:
“A idéia básica está presente em diferentes linhas do budismo: o que nos faz sofrer é o apego. Na vida, o apego se manifesta por uma reação de cobiça ou aversão. Queremos continuar sentindo o que nos dá prazer e não aceitamos sentir o que nos causa algum tipo de dor. Se aprendermos a arte do desapego – ou seja, não cobiçar o prazer nem sentir aversão pela dor –, a fonte do sofrimento estanca. Para isso, precisamos compreender que a vida é impermanência. Que nada dura, nem o prazer nem a dor.”
Essa história me lembra um pouco o filme O Curioso Caso de Benjamin Button, a linda e original história de amor, que tem como antagonista o tempo. Ele nos mostra o óbvio, sem ser óbvio:A vida é efêmera e impermanente. A perfeição, na verdade, não existe. E a busca por ela faz com que nós nos percamos na não-apreciação do presente imediato. Isso só traz o sofrimento.
Por que comecei falando das teorias pessoais e da Clarice no começo, se queria falar apenas de um livro? Bom, o meu propósito aqui é dizer que eu estava enganada a respeito de algumas coisas pelas quais vinha surtando nos últimos tempos. Tenho certeza que esse ano, apesar de ímpar, vai ser marcante e decisivo na minha vida. Quero fazer dele um acúmulo de fatos inéditos. Até o momento,está tudo ao contrário,mas tudo bem...Até dezembro eu consigo inverter a situação! E, especialmente hoje, agradeço à Eliane Brum por esse livro (E me culpo de não tê-la conhecido antes, pelo simples folhear de uma revista).E vá a napoli todo o papo de objetividade e imparcialidade jornalística:
“Nossa época acredita que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor, física ou psíquica. Não ter dor se tornou quase um direito. Basta uma pontada na cabeça, que já corremos a tomar uma pílula. Basta uma tristeza real, para que imediatamente nos ofereçam um antidepressivo. Não queremos menstruar nem ter dor de parto, qualquer desentendimento com o chefe acaba com nosso dia, desistimos de um amor no primeiro percalço, por acreditar que merecemos a felicidade eterna. Não podemos nem sentir calor ou frio, para isso há ar-condicionado. Parece que não queremos é viver.”

15 de fev. de 2009

"Não faz disso esse drama, essa dor! É que a sorte é preciso tirar pra ter..."
Sabe aqueles dias,em que você pára,olha pra si mesmo e pensa:"Tá tudo errado!".Pois é...TÁ TUDO ERRADO!!!

14 de fev. de 2009

"
O que nunca pensei é que, pudesse ser assim tão vazia uma casa sem um anjo. Dentro de mim, existe alguma coisa que espera a sua volta,de repente,não sei se pela janela ou se aparecerá novamente no mesmo lugar. Para prevenir surpresas, tenho deixado sempre abertas todas as janelas e todas as portas.Não,meu bem, não adianta bancar o distante:Lá vem o amor nos dilacerar de novo...Tento me concentrar numa daquelas sensações antigas, como alegria, ou fé, ou esperança.Mas só fico aqui parada, sem sentir nada, sem pedir nada, sem querer nada.Durante algum tempo, fiz coisas antigas como chorar e sentir saudade, da maneira mais humana possível:Fiz coisas antigas e humanas como se elas me solucionassem.Não solucionaram...Doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais, pequenos paraísos-perdidos.Minha alma tem o peso da luz.Tem o peso da música.Tem o peso da palavra nunca dita,prestes quem sabe a ser dita.Tem o peso de uma lembrança.Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor.Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse ao meu encontro...Mas é preciso estar com as sete portas abertas, para saber quando as coisas se modificam.Dentro daquela saudade que não ia embora por mais que o tempo passasse, e dentro dela, mesmo sem lembrar, apenas agindo, todos os dias eu acordava e tomava banho, escovava os dentes e fazia todas essas coisas rotineiras, igual a alguém que aos trancos, mecanicamente, continua a viver...Embora ausente, ainda doem - Sem poder evitar, inesperadamente, sem querer evitar!Só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto.Não vou perguntar porque você voltou,acho que nem mesmo você sabe...Eu também não queria perguntar,pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão,mas não é,sei que não é,você também sabe,pelo menos por enquanto,talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta?É preciso encher o vazio de palavras,ainda que seja tudo incompreensão?Só vou perguntar porque você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto.E esquece sabendo que está esquecendo...Dá vontade de amar.De amar de um jeito "certo", que a gente não tem a menor idéia de qual poderia ser, se é que existe um.Porque fé, quando não se tem, se inventa,... Para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal... Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo, nem medo, e de alguma forma insana esperam a volta dele:Que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem...Sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma —Sobre esses que sobrevivem a cada dia, ao naufrágio de uma por uma das ilusões...Não que fosse amor de menos(...)Era amor demais!Dói muito, mas eu não vou parar. A minha não-desistência é o que de melhor posso oferecer a você e a mim neste momento. Pois isso, saiba, isso que poderá me matar, eu sei, é a única coisa que poderá me salvar. Um dia entenderemos talvez!Encontrei o amor. Ele não é real, mas que se há de fazer? A gente não pode ter tudo na vida...E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.Uma frase, um verso qualquer, capaz de fazê-lo erguer a cabeça e olhar direto para mim.Reconheci as canções que você não ouviu. Escrevi cartas que nunca foram enviadas. Ouvi suas palavras não ditas.Principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos(. . .)alguém diria "telefone-para-você" e do outro lado da linha... Aquela voz conhecida, diria:"Sinto-falta-de-você-volta-pra-mim".Mas,isso nunca aconteceu.Hoje tomaria um porre de conhaque com você.Um porre lúcido. Fomos FEITOS para tomar porres um com o outro.Queria dizer alguma coisa, que faria você largar tudo e vir correndo me ver.
Porque o mundo apesar de redondo, tem muitas esquinas...Venha quando quiser, ligue, chame, escreva -Tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim."

25 de jan. de 2009

Tenho andado meio distraída, pensando demais em trabalho, na vida. Não, nem um pouco ocupada, muito pelo contrário: desocupada demais. Aí já viu, sobra tempo pra ficar fazendo e pensando bobagens. Porém,deixando isso de lado, preciso contar:Quase sempre penso em você. Mais à noitezinha,por volta das 19 horas.E bem mais naqueles dias, que parecem que existe uma placa na testa da gente dizendo: “LOST!”. Ontem mesmo fiquei lembrando da última vez que, eu teria ouvido a sua voz.O pensamento que penso de você é fotográfico. Acho que daria para decorar uma casa, cheia de boas imagens com esses pensamentos. Esses dias fiquei olhando para a minha xícara de café,e lembrando das coisas engraçadas que você sempre dizia.Gastei um bom tempo tentando lembrar,qual teria sido a útima vez que nos falamos.Engraçado como tanta coisa mudou,mas o seu sorriso (Ah, teu sorriso,continua o mesmo).Bom,depois dessa overdose de nostalgia,de ficar lembrando dessas épocas deliciosamente melosas-piegas-bregas-banais e de encontrar meu segundo fio de cabelo branco, essa manhã tive a sensação de que nossa vida daria um livro, um filme talvez.Não,todas essas lembranças não me doem. Não trazem tristeza alguma. Nada que eu penso de você ameaça. Uma coisa é certa, nunca me lembro de te esquecer. Boas e bobas são as coisas todas que penso quando penso em você.
Sabe,o ano de 2008 não foi dos mais difíceis, mas passou longe de ser perfeito. Foram 12 meses de perdas:Perdi literalmente meu amor pelo trabalho.Perdi muitas vezes a fé nas pessoas e por diversas vezes perdi você de vista. Também perdi a conta de quantas vezes, perdi a vontade de desistir de você. Talvez perder seja o caminho para ganhar algumas vezes.Mas,hoje pedi que o Papai do Céu,te dê uma vida nova de presente, cheia de sonhos bons, escritos nas paredes da sua alma como canções-pop-rock que você adora.Pedi pra Ele nunca deixar que você se canse de andar, criar, transformar, sonhar e amar.Que daqui pra frente baby,você aprenda, todos os dias,a PERDER… o medo de ser feliz.

24 de jan. de 2009

Durante muito tempo andei com um ar de pessimismo, algo meio “blasé” estampado na cara. A grande verdade é que ficava apenas tentando esconder uma esperança, capaz de parar o mundo. Mas em cada momento de ruptura minha fraqueza ficou exposta, com ela, as grandes expectativas frustradas. Na minha vida sempre foi assim: sempre desejei aquilo que não podia ter. Pouco importa o quanto tenha tentando ou quão boas tenham sido as minhas intenções: os sonhos desfeitos sempre me ferraram. E para essa dor não há tecnologia, nem ciência, nem regras úteis e rápidas que possam me ajudar. É preciso apenas superar, e contar com a sorte de um dia esquecer tudo isso. Tudo bem que a única coisa que tenho conseguido ultimamente é passar noites acordada, revivendo lembranças e me revirando com uma dor maldita da qual não consigo me livrar… Sinceramente estou cansada, esgotada de no final dos dias contabilizar minhas perdas. Mas, pensando bem, por mais duro que seja sofrer por querer muito uma coisa, acho que as pessoas que mais sofrem, são aquelas que não sabem o que querem.
“Pelo que vale a pena nunca é tarde demais… Ou cedo demais em alguns casos. Seja aquilo que você quer ser. Não há limite de tempo. Pode começar quando quiser. Você pode mudar ou seguir fazendo a mesma coisa. Não há regras para isso. Você pode escolher o melhor ou o pior da vida. Espero que escolha o melhor. Espero que veja coisas que te surpreendam. Espero que sinta coisas que nunca sentiu antes. Espero que conheça pessoas interessantes, com diferentes pontos de vista. Espero que viva uma vida da qual se orgulhe. E se pensar que é capaz, espero que tenha a força… para sempre que preciso for… começar de novo. “
- from: The Curious Case of Benjamin Button -

23 de dez. de 2008

"Fico vivendo uma vida toda pra dentro,lendo,escrevendo,ouvindo música o tempo todo.Tenho tentado aprender a ser humilde.A engolir o nãos que a vida te enfia goela abaixo.A lamber o chão dos palácios.A me sentir desprezado-como-um-cão,e tudo bem, acordar,escovar os dentes,tomar café e continuar... Fiquei ali parada,procurando alguma coisa que não estava, nem esteve ou estaria JAMAIS ali.Ah,então foi pra ele que eu dei meu coração e tanto sofri?Amor é falta de QI,tenho cada vez mais certeza!No meu demente exercício para pisar no real,finjo que não fantasio.E fantasio,fantasio.Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone.Que você fosse ao aeroporto. Casablanca,última cena.Mas sempre me pergunto por que,raios,a gente tem que partir.Voltar,depois,quase impossível!!!Penso,com mágoa,que o relacionamento da gente sempre foi um tanto unilateral,sei lá,não quero ser injusta nem nada -Apenas me ferem muito esses teus silêncios...Tô exausta de construir e demolir fantasias.Não quero me encantar com ninguém.
Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que, se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta,mas tanta coisa.Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo,um pouco por timidez,por vergonha,por falta de oportunidade,mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitada,que coloco em palavras todo o meu processo mental(Processo Mental:É exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado)e que isso assusta as pessoas,e que é preciso disfarçar, jogar,esconder,mentir.Eu não queria que fosse assim.Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro,mas eles não me deixam,você não me deixa!Mas não se preocupe,não vou tomar nenhuma medida drástica,a não ser continuar,tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça,toca meu coração com teus dedos frios,eu tive tanto amor um dia,ele pára e pede,preciso tanto...tanto...tanto,cara!Eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era.Mas eu não podia,ou podia mas não devia,ou podia mas não queria, ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás,eu tinha que continuar...
Preciso entrar com certa ordem no que digo,e dizer de novo, vê se me entendes:Ele não se afasta,mas é dentro dele que eu me afasto.Dentro dele, eu espio o de fora de nós.E não me atrevo.Tinha terminado,então.PORQUE A GENTE,ALGUMA COISA DENTRO DA GENTE,SEMPRE SABE EXATAMENTE QUANDO TERMINA... Chorei por três horas,depois dormi dois dias.Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada.Olhar,quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite.E acontece que eu ainda sou babaca,pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O Verdadeiro AmorNos últimos dias,isto é,ontem,a tristeza começou a ceder terreno a uma espécie de -digamos-abnegação.Durmo,acordo,faço coisas,leio muito.E esse vazio que ninguém dá jeito?Você guarda no bolso,olha o céu,suspira,vai a um cinema,essas coisas.E tudo,e tudo..E tudo!Repito sempre:Sossega,sossega -O amor não é para o teu bico...Não sei se em algum momento, cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou,o tempo todo,como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência.Estou tentando ser honesta e limpa.Uma Possibilidade que eu precisava devorar ou destruir!Dane-se.Comigo sempre foi tudo ao contrário.Não queria,desde o começo eu não quis. Desde que senti que ia cair e me quebrar inteira na queda para depois restar incompleto,destruída talvez,as mãos desertas,o corpo lasso.E você dizia coisas tolas como, quando o vento bater no trigo te lembrarás da cor dos meus cabelos(...)Quando a gente precisa que alguém fique, a gente constrói qualquer coisa,até um castelo.
Preciso sim,preciso tanto.Alguém que aceite tanto meus sonos demorados, quanto minhas insônias insuportáveis.Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis, quanto meu ciclo etílico bukovskiano.Que me desperte com um beijo,abra a janela para o sol ou a penumbra.Nunca tive porra de ideal nenhum,só queria salvar a minha,veja só que coisa mais individualista elitista,capitalista,só queria ser feliz,burra, gorda,alienada e completamente feliz!Não estou desesperada,não mais que sempre estive,não estou bêbada, nem louca,estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída!Tesão se resolve na cama,não emprestando livro ou apresentando droga!
Alguma coisa aconteceu comigo.Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela(...)Então serei clara,prometo.Para você,para mim mesma.Como sempre tentei ser.Mas por enquanto,e por favor,tente entender o que tento dizer.Escuta bem,vou repetir no teu ouvido,muitas vezes:A única coisa que posso fazer é escrever,a única coisa que posso fazer é escrever!Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados.Alguns, sim -Nós,não. Contidamente,continuamos.E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas,como “sei que vai passar”.Esse é o nosso jeito de continuar,o mais eficiente e também o mais cômodo,porque não implica em decisões,apenas em paciência.Ele me olhava triste. Eu não suportava seu olhar triste a lembrar-me das vezes todas que o tinha procurado inutilmente pelas ruas sem encontrá-lo. Agora que o encontrava já não o procurava. E um encontro sem procura era tão inútil quanto uma procura sem encontro. Detalhei meus movimentos para que não o atemorizassem.E novamente o olhei.Ah se conseguisse!!!Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía.Sem remédio!!!E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado:Alguma coisa sempre faz falta.Guarde sem dor,embora doa,e em segredo.Mas se eu tivesse ficado,teria sido diferente?Melhor interromper o processo em meio:Quando se conhece o fim,quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente?Não há sentido:Melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta,camisa jogada na cadeira,uma fotografia –Qualquer coisa que depois de muito tempo,a gente possa olhar e sorrir,mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada,e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor,pois se eu me comovia vendo você,pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo,meu Deus...Como você me doía!De vez em quando eu vou ficar esperando você, numa tarde cinzenta de inverno,bem no meio duma praça,então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta,mas tanta coisa...Que eu vou ficar calada um tempo enorme...Só olhando você,sem dizer nada...Só olhando e pensando:Meu Deus,mas como você me dói de vez em quando!"
"... Eu parado na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então, desamparado entre cinzeiros cheios e garrafas vazias.Você indo embora.Eu indeciso entre beber um pouco mais, ou procurar uma beata em plena devastação ou, lavar copos, bater sofás, guardar discos, mastigar algum verso, adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar, partir, morrer, sonhar quem sabe. Você indo embora. ,Acordar na manhã seguinte com gosto de corrimão de escada na boca:Mais frustração que ressaca,desgosto generalizado que aspirina alguma cura.Tocaria o telefone?Você indo embora, fotograma repetido.Na montagem,intercalar.Você indo embora...Você indo embora."
( Trecho de:Saudades de Audrey Hepburn)
"(...)Eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe,eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem,está bem, eu espero aqui do lado da janela,(...)"
"Queria pensar que é esse o sentido,que será esse o depois. Não sei se posso.Há dias, como hoje, em que por mais que minta, sequer consigo ver você. Seus membros longos, que o vento rouba dos panos. Só escuto os dentes rangendo e os ruídos internos de meu próprio corpo. Tudo isso me cega. Leva-me daqui,eu peço. E cruzo as duas mãos sobre o peito, como se sentisse frio ou afastasse demônios. Aperto o rosto contra a janela. Duas pombas, cada uma delas bica um de meus olhos. Talvez um dia consigam quebrar o vidro. Não há ninguém dançando sobre os telhados.Nunca houve. Para não ver o cinza que se transforma em verde, olho para além deles. O dia está muito quente."
(Morangos Mofados)
"Talvez um voltasse,talvez o outro fosse.Talvez um viajasse,talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas,telefonemas noturnos,dominicais,cristais e contas por sedex (...)talvez ficassem curados,ao mesmo tempo ou não.Talvez algum partisse,outro ficasse.Talvez um perdesse peso,o outro ficasse cego.Talvez não se vissem nunca mais,com olhos daqui pelo menos,talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem junto para Paris(...)talvez um se matasse,o outro negativas.Seqüestrados por um OVNI,mortos por bala perdida,quem sabe.Talvez tudo, talvez nada.
("Depois de agosto", Ovelhas negras)
"...Tive vontade de sentar na calçada da Rua Augusta e chorar, mas preferi entrar numa livraria, comprar um caderno lindo e anotar sonhos(...)E tudo que eu andava fazendo e sendo, eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo,por dentro da chuva,que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu,E EU ERA. Já li tudo,cara, já tentei macrobiótica, psicanálise, drogas, acumpuntura, suicídio, ioga, dança, natação, cooper, astrologia, patins, marxismo, candomblé, boate gay, ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?Não é plágio de Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma...Fico tão cansada às vezes, e digo pra mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. E fumo,e fico horas sem pensar absolutamente nada: (...) Claro,é preciso julgar a si próprio com o máximo de rigidez, mas não sei se você concorda, as coisas por natureza já são tão duras para mim que não me acho no direito de endurecê-las ainda mais."
(Trechos de Caio F.)