23 de out. de 2009

"Até onde eu me lembro,eu era a garantia..."
Com a lucidez dos embriagados,se reconheceram desde o primeiro minuto,apesar da incerteza intensificada dos dias que ainda estavam por vir.Eram apenas duas pessoas totalmente distantes,quando ele perguntou se ela conhecia aquela música.Sem pensar disse:“mais ou menos”.Ele ficou calado por alguns segundos,como se sentisse ofendido por ela praticamente ignorar sua canção favorita.Não passavam de dois estranhos,em diferentes geografias,vivendo a vida porque se acorda todo o dia (não porque se têm sonhos),que de repente se esbarraram por meio de sons e palavras.Não é simples explicar o que aconteceu,pois só quem já descobriu uma certeza que só se tem uma vez na vida, sabe como é terrivelmente bom e terrivelmente assustador amar o que foge dos olhos,do controle e da razão. E pensar que,quando aqueles dois perdidos se encontraram naquele lugar tão inesperado,tão cheio de pessoas que chegavam e partiam constantemente,ela estava tão “segura” em seu pequeno mundinho limitado,onde não existia espaço para encontros e desencontros e infinitas-esperas-de-não-sei-quem.Se identificaram pelas canções, pelo desalento, pelos doces e amargos do viver.O pavor do desconhecido terminou naquele instante:Um pouco febril,de pranto contido e sorrisos metade-tímidos-metade-tristes.Ambos só conseguiam pensar que,jamais imaginaram encontrar alguém que pudesse compreendê-los tão completamente.Não tinham nada,mas tinham tudo.Tinham um ao outro. No ar pairava uma espécie de embriaguez,quando um dia a canção parou(the end),ele pegou suas notas e partiu.Restou o silêncio e a amargura da espera,que a fez pensar todos os dias em muitas coisas,como tantas pessoas neste mundo,por algum motivo deixavam de viver.Muitas vezes,depois pensou em quantas vezes aquela música sugeriu coisas que sabia que não podiam ser.Questionava se alguém saberia exatamente o que quer.Chorava por coisas que não foram nunca. Hoje anda perdida em algum lugar,abraçada ao que sobrou de sua pseudo-alegria, morrendo por tudo,com o coração parado em algum lugar,onde se viveu o que jamais imaginou ter vivido.Está cansada de tanto tentar entender,e as dores causadas por seres,ironicamente,humanos.Vive em busca daquelas mãos,braços,e abraços.Procura em todos os lados,por aquele sorriso que esconde um desejo de amar bem disfarçado,para que ninguém veja e se surpreenda com a grandeza do seu coração.Tudo o que aconteceu ainda cansa,e a faz pensar se não seriam apenas cicatrizes que se levam quando se morre… Pois sabe bem que,não passamos de uma simples lembrança na memória daqueles que vamos deixar por aqui.

21 de out. de 2009

"Até onde eu me lembro,era você quem chorava..."
Uma pessoa,quando tá longe,vive coisas que não te comunica,e tu,aqui,vive coisas que não a comunica.Então,vocês vão se distanciando e,quando vocês se encontrarem,ele vai te falar,por cima,de tudo que ele viveu,e,não sei,vai ser uma proximidade distante.Não adianta,no momento que as pessoas se afastam,elas estão irremediavelmente perdidas uma da outra...Às vezes,quando ainda valia a pena,eu ficava horas pensando que podia voltar tudo a ser como antes.Oh Deus, que sereno inferno esse de lembrar o bom de antes, quando nem sabíamos que acharíamos bom um dia.E seria?Cuidado,o tempo mascara o duro!Não havia nada para fazer lá em cima, a não ser falar.E nós tínhamos tão pouca experiência disso,que falamos e falamos, durante muito e muito tempo,e entre inúmeras coisas sem importância,você disse que me amava,ou eu disse que te amava,ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas,bobas,insiginificantes.Porque nada modificaria os nossos roteiros.E decidi me poupar mais.Tem sido difícil.E não sei se há recompensa.Talvez,quem sabe,me sentir melhor comigo mesma...Não se preocupe com não-respostas ou longos silêncios.Sou a pessoa mais indicada para compreender esse tipo de coisa.Eu queria que não fosse assim, que não tivesse sido assim. Mas não consegui evitar. A semente recusava-se a vir à tona, eu nem sempre tinha tempo ou vontade de regá-la, e não chovia mais,foi isso o que aconteceu.Eu tinha escolhido assim, num remoto dia qualquer em que deixei de acreditar, não lembraria quando, e isso era para sempre,tanto quanto pode ser para sempre, o que por estar vivo tem um coração que bate, mas,imprevisto e fatal,um dia deixará de bater.Por não querer mais depositar esperanças em nada que pudesse vir de fora, já que de dentro nada mais viria.Acho que fiz tudo do jeito melhor,meio torto,talvez,mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei.
Seja como for,continuo gostando muito de você,da mesma forma,você está quase sempre perto de mim,quase sempre presente em memórias,lembranças,histórias que conto às vezes,saudade...Mesmo que a gente não se veja mais,penso em você,penso em você com força e carinho.Porque já não temos mais idade para, dramaticamente,usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca".Ninguém sabe como,mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida,das pessoas e das coisas.Já não tentamos o suicidio, nem cometemos gestos tresloucados.Alguns,sim -nós,não.Contidamente, continuamos.E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas,como "sei que vai passar".Esse é o nosso jeito de continuar,o mais eficiente e também o mais cômodo,porque não implica em decisões,apenas em paciência.É assim que as coisas são, e o fugaz delas é a sua eternidade,não no real,mas na memória de quem lembra.Ás vezes,eu sentia raiva,mas não dizia nada,só sabia repetir:Isso-passa-questão-de-tempo-tudo-bem!Eu te amei muito.Só não te dizia com certa frequência, como você também não disse,mas acho que você soube.As manhãs são boas para acordar dentro delas,beber café,espiar o tempo.Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos,porque são o que são e também nos olham,com olhos que nada pensam. Desde que você se foi,para que eu pudesse enfim, aprender a grande desilusão do paraíso,é assim que sinto:Quase sem sentir!A gente enfeita o cotidiano,tudo se ajeita.Menos a morte.Tô bem assim,bem indiferente.O coração,um cactus.Não me importo mais...
Eu queria te dizer uma porção de coisas,de uma porção de noites,ou tardes,ou manhãs,não importa a cor,é,a cor,o tempo é só uma questão de cor não é?Não era mais você:Eu amava alguém que não existia mais,objetivamente.Existia somente dentro de mim."Não-ter" pode ser bonito, descobri.Acho que foi o fato de você partir, que me fez descobrir tantas coisas!Às vezes me lembro de você.Sem rancor,sem tristeza.Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que,afinal,o tempo passou.Nunca mais te vi,depois que foi embora.Nunca nos escrevemos.Não havia mesmo o que dizer.Ou havia?Ah,como não sei responder as minhas próprias perguntas!É possível que,no fundo,sempre restem algumas coisas para serem ditas.É possível também que,o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas,e a gente continua a buscar,a investigar,e principalmente a fingir.Fingir que encontra.Acho que,se tornasse a vê-lo,custaria a reconhecê-lo.Na minha memória tão congestionada,e no meu coração,tão cheio de marcas e poços,você ocupa um dos lugares mais bonitos.Mesmo assim,chega um ponto que a gente cansa,que não quer mais saber.Na verdade foi tudo muito natural, como se um dia isso tivesse mesmo que acontecer,e exatamente dessa forma.Ah, mas tudo bem...Em seguida todo mundo se acostuma.As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade.Como é mesmo que minha mãe dizia?Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos,longe do coração.Pois é...E sem pensar em nada,sem nenhuma amargura,rejeição,rancor ou melancolia.Nada por dentro e por fora, além daquele quase-novembro,daquele sábado,daquele vento,daquele céu azul,daquela não-dor afinal...Foi quando eu senti,mais uma vez,que amar não tem remédio!