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Nos últimos tempos tenho criado teorias pessoais para aquelas coisas que não dão muito certo na vida. Já culpei o final do ano, já pensei em inferno astral pré-aniversário e já maldisse os anos ímpares. Tudo isso é um bando de besteira.
Existem alguns textos, livros ou músicas que conseguem ter um efeito devastador em mim – no bom e no mau sentido. Clarice Lispector é um deles. A maneira que essa mulher escreve e narra devaneios psicológicos é algo que mexe com cada fio de cabelo da minha cabeça. E me influencia no modo de ver o mundo e na minha forma de escrever. Há tempos que não a visito.
Essa semana, realizei uma belíssima aquisição. Do tipo que balança a nossa vida e que dá vontade de mostrar para todo mundo poder conhecer também. O Olho da Rua, mais novo livro da jornalista gaúcha Eliane Brum, é uma coletânea com as dez melhores reportagens dela realizadas para a Revista Época. Todas vêm com textos da Eliane, comentando os “bastidores das notícias”.
O livro tem uma história, entre várias outras ótimas,que me chamou especial atenção. O inimigo sou eu. Uma reportagem na qual a jornalista passou dez dias em um retiro de meditação Vipassana.Algumas frases são muito bem feitas e eu quero compartilhar aqui com vocês:
“A idéia básica está presente em diferentes linhas do budismo: o que nos faz sofrer é o apego. Na vida, o apego se manifesta por uma reação de cobiça ou aversão. Queremos continuar sentindo o que nos dá prazer e não aceitamos sentir o que nos causa algum tipo de dor. Se aprendermos a arte do desapego – ou seja, não cobiçar o prazer nem sentir aversão pela dor –, a fonte do sofrimento estanca. Para isso, precisamos compreender que a vida é impermanência. Que nada dura, nem o prazer nem a dor.”
Essa história me lembra um pouco o filme O Curioso Caso de Benjamin Button, a linda e original história de amor, que tem como antagonista o tempo. Ele nos mostra o óbvio, sem ser óbvio:A vida é efêmera e impermanente. A perfeição, na verdade, não existe. E a busca por ela faz com que nós nos percamos na não-apreciação do presente imediato. Isso só traz o sofrimento.
Por que comecei falando das teorias pessoais e da Clarice no começo, se queria falar apenas de um livro? Bom, o meu propósito aqui é dizer que eu estava enganada a respeito de algumas coisas pelas quais vinha surtando nos últimos tempos. Tenho certeza que esse ano, apesar de ímpar, vai ser marcante e decisivo na minha vida. Quero fazer dele um acúmulo de fatos inéditos. Até o momento,está tudo ao contrário,mas tudo bem...Até dezembro eu consigo inverter a situação!
E, especialmente hoje, agradeço à Eliane Brum por esse livro (E me culpo de não tê-la conhecido antes, pelo simples folhear de uma revista).E vá a napoli todo o papo de objetividade e imparcialidade jornalística:
“Nossa época acredita que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor, física ou psíquica. Não ter dor se tornou quase um direito. Basta uma pontada na cabeça, que já corremos a tomar uma pílula. Basta uma tristeza real, para que imediatamente nos ofereçam um antidepressivo. Não queremos menstruar nem ter dor de parto, qualquer desentendimento com o chefe acaba com nosso dia, desistimos de um amor no primeiro percalço, por acreditar que merecemos a felicidade eterna. Não podemos nem sentir calor ou frio, para isso há ar-condicionado. Parece que não queremos é viver.”
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