23 de dez. de 2008

"Fico vivendo uma vida toda pra dentro,lendo,escrevendo,ouvindo música o tempo todo.Tenho tentado aprender a ser humilde.A engolir o nãos que a vida te enfia goela abaixo.A lamber o chão dos palácios.A me sentir desprezado-como-um-cão,e tudo bem, acordar,escovar os dentes,tomar café e continuar... Fiquei ali parada,procurando alguma coisa que não estava, nem esteve ou estaria JAMAIS ali.Ah,então foi pra ele que eu dei meu coração e tanto sofri?Amor é falta de QI,tenho cada vez mais certeza!No meu demente exercício para pisar no real,finjo que não fantasio.E fantasio,fantasio.Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone.Que você fosse ao aeroporto. Casablanca,última cena.Mas sempre me pergunto por que,raios,a gente tem que partir.Voltar,depois,quase impossível!!!Penso,com mágoa,que o relacionamento da gente sempre foi um tanto unilateral,sei lá,não quero ser injusta nem nada -Apenas me ferem muito esses teus silêncios...Tô exausta de construir e demolir fantasias.Não quero me encantar com ninguém.
Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que, se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta,mas tanta coisa.Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo,um pouco por timidez,por vergonha,por falta de oportunidade,mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitada,que coloco em palavras todo o meu processo mental(Processo Mental:É exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado)e que isso assusta as pessoas,e que é preciso disfarçar, jogar,esconder,mentir.Eu não queria que fosse assim.Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro,mas eles não me deixam,você não me deixa!Mas não se preocupe,não vou tomar nenhuma medida drástica,a não ser continuar,tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça,toca meu coração com teus dedos frios,eu tive tanto amor um dia,ele pára e pede,preciso tanto...tanto...tanto,cara!Eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era.Mas eu não podia,ou podia mas não devia,ou podia mas não queria, ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás,eu tinha que continuar...
Preciso entrar com certa ordem no que digo,e dizer de novo, vê se me entendes:Ele não se afasta,mas é dentro dele que eu me afasto.Dentro dele, eu espio o de fora de nós.E não me atrevo.Tinha terminado,então.PORQUE A GENTE,ALGUMA COISA DENTRO DA GENTE,SEMPRE SABE EXATAMENTE QUANDO TERMINA... Chorei por três horas,depois dormi dois dias.Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada.Olhar,quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite.E acontece que eu ainda sou babaca,pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O Verdadeiro AmorNos últimos dias,isto é,ontem,a tristeza começou a ceder terreno a uma espécie de -digamos-abnegação.Durmo,acordo,faço coisas,leio muito.E esse vazio que ninguém dá jeito?Você guarda no bolso,olha o céu,suspira,vai a um cinema,essas coisas.E tudo,e tudo..E tudo!Repito sempre:Sossega,sossega -O amor não é para o teu bico...Não sei se em algum momento, cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou,o tempo todo,como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência.Estou tentando ser honesta e limpa.Uma Possibilidade que eu precisava devorar ou destruir!Dane-se.Comigo sempre foi tudo ao contrário.Não queria,desde o começo eu não quis. Desde que senti que ia cair e me quebrar inteira na queda para depois restar incompleto,destruída talvez,as mãos desertas,o corpo lasso.E você dizia coisas tolas como, quando o vento bater no trigo te lembrarás da cor dos meus cabelos(...)Quando a gente precisa que alguém fique, a gente constrói qualquer coisa,até um castelo.
Preciso sim,preciso tanto.Alguém que aceite tanto meus sonos demorados, quanto minhas insônias insuportáveis.Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis, quanto meu ciclo etílico bukovskiano.Que me desperte com um beijo,abra a janela para o sol ou a penumbra.Nunca tive porra de ideal nenhum,só queria salvar a minha,veja só que coisa mais individualista elitista,capitalista,só queria ser feliz,burra, gorda,alienada e completamente feliz!Não estou desesperada,não mais que sempre estive,não estou bêbada, nem louca,estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída!Tesão se resolve na cama,não emprestando livro ou apresentando droga!
Alguma coisa aconteceu comigo.Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela(...)Então serei clara,prometo.Para você,para mim mesma.Como sempre tentei ser.Mas por enquanto,e por favor,tente entender o que tento dizer.Escuta bem,vou repetir no teu ouvido,muitas vezes:A única coisa que posso fazer é escrever,a única coisa que posso fazer é escrever!Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados.Alguns, sim -Nós,não. Contidamente,continuamos.E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas,como “sei que vai passar”.Esse é o nosso jeito de continuar,o mais eficiente e também o mais cômodo,porque não implica em decisões,apenas em paciência.Ele me olhava triste. Eu não suportava seu olhar triste a lembrar-me das vezes todas que o tinha procurado inutilmente pelas ruas sem encontrá-lo. Agora que o encontrava já não o procurava. E um encontro sem procura era tão inútil quanto uma procura sem encontro. Detalhei meus movimentos para que não o atemorizassem.E novamente o olhei.Ah se conseguisse!!!Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía.Sem remédio!!!E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado:Alguma coisa sempre faz falta.Guarde sem dor,embora doa,e em segredo.Mas se eu tivesse ficado,teria sido diferente?Melhor interromper o processo em meio:Quando se conhece o fim,quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente?Não há sentido:Melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta,camisa jogada na cadeira,uma fotografia –Qualquer coisa que depois de muito tempo,a gente possa olhar e sorrir,mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada,e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor,pois se eu me comovia vendo você,pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo,meu Deus...Como você me doía!De vez em quando eu vou ficar esperando você, numa tarde cinzenta de inverno,bem no meio duma praça,então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta,mas tanta coisa...Que eu vou ficar calada um tempo enorme...Só olhando você,sem dizer nada...Só olhando e pensando:Meu Deus,mas como você me dói de vez em quando!"
"... Eu parado na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então, desamparado entre cinzeiros cheios e garrafas vazias.Você indo embora.Eu indeciso entre beber um pouco mais, ou procurar uma beata em plena devastação ou, lavar copos, bater sofás, guardar discos, mastigar algum verso, adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar, partir, morrer, sonhar quem sabe. Você indo embora. ,Acordar na manhã seguinte com gosto de corrimão de escada na boca:Mais frustração que ressaca,desgosto generalizado que aspirina alguma cura.Tocaria o telefone?Você indo embora, fotograma repetido.Na montagem,intercalar.Você indo embora...Você indo embora."
( Trecho de:Saudades de Audrey Hepburn)
"(...)Eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe,eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem,está bem, eu espero aqui do lado da janela,(...)"
"Queria pensar que é esse o sentido,que será esse o depois. Não sei se posso.Há dias, como hoje, em que por mais que minta, sequer consigo ver você. Seus membros longos, que o vento rouba dos panos. Só escuto os dentes rangendo e os ruídos internos de meu próprio corpo. Tudo isso me cega. Leva-me daqui,eu peço. E cruzo as duas mãos sobre o peito, como se sentisse frio ou afastasse demônios. Aperto o rosto contra a janela. Duas pombas, cada uma delas bica um de meus olhos. Talvez um dia consigam quebrar o vidro. Não há ninguém dançando sobre os telhados.Nunca houve. Para não ver o cinza que se transforma em verde, olho para além deles. O dia está muito quente."
(Morangos Mofados)
"Talvez um voltasse,talvez o outro fosse.Talvez um viajasse,talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas,telefonemas noturnos,dominicais,cristais e contas por sedex (...)talvez ficassem curados,ao mesmo tempo ou não.Talvez algum partisse,outro ficasse.Talvez um perdesse peso,o outro ficasse cego.Talvez não se vissem nunca mais,com olhos daqui pelo menos,talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem junto para Paris(...)talvez um se matasse,o outro negativas.Seqüestrados por um OVNI,mortos por bala perdida,quem sabe.Talvez tudo, talvez nada.
("Depois de agosto", Ovelhas negras)
"...Tive vontade de sentar na calçada da Rua Augusta e chorar, mas preferi entrar numa livraria, comprar um caderno lindo e anotar sonhos(...)E tudo que eu andava fazendo e sendo, eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo,por dentro da chuva,que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu,E EU ERA. Já li tudo,cara, já tentei macrobiótica, psicanálise, drogas, acumpuntura, suicídio, ioga, dança, natação, cooper, astrologia, patins, marxismo, candomblé, boate gay, ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?Não é plágio de Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma...Fico tão cansada às vezes, e digo pra mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. E fumo,e fico horas sem pensar absolutamente nada: (...) Claro,é preciso julgar a si próprio com o máximo de rigidez, mas não sei se você concorda, as coisas por natureza já são tão duras para mim que não me acho no direito de endurecê-las ainda mais."
(Trechos de Caio F.)