23 de dez. de 2008

"... Eu parado na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então, desamparado entre cinzeiros cheios e garrafas vazias.Você indo embora.Eu indeciso entre beber um pouco mais, ou procurar uma beata em plena devastação ou, lavar copos, bater sofás, guardar discos, mastigar algum verso, adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar, partir, morrer, sonhar quem sabe. Você indo embora. ,Acordar na manhã seguinte com gosto de corrimão de escada na boca:Mais frustração que ressaca,desgosto generalizado que aspirina alguma cura.Tocaria o telefone?Você indo embora, fotograma repetido.Na montagem,intercalar.Você indo embora...Você indo embora."
( Trecho de:Saudades de Audrey Hepburn)
"(...)Eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe,eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem,está bem, eu espero aqui do lado da janela,(...)"
"Queria pensar que é esse o sentido,que será esse o depois. Não sei se posso.Há dias, como hoje, em que por mais que minta, sequer consigo ver você. Seus membros longos, que o vento rouba dos panos. Só escuto os dentes rangendo e os ruídos internos de meu próprio corpo. Tudo isso me cega. Leva-me daqui,eu peço. E cruzo as duas mãos sobre o peito, como se sentisse frio ou afastasse demônios. Aperto o rosto contra a janela. Duas pombas, cada uma delas bica um de meus olhos. Talvez um dia consigam quebrar o vidro. Não há ninguém dançando sobre os telhados.Nunca houve. Para não ver o cinza que se transforma em verde, olho para além deles. O dia está muito quente."
(Morangos Mofados)
"Talvez um voltasse,talvez o outro fosse.Talvez um viajasse,talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas,telefonemas noturnos,dominicais,cristais e contas por sedex (...)talvez ficassem curados,ao mesmo tempo ou não.Talvez algum partisse,outro ficasse.Talvez um perdesse peso,o outro ficasse cego.Talvez não se vissem nunca mais,com olhos daqui pelo menos,talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem junto para Paris(...)talvez um se matasse,o outro negativas.Seqüestrados por um OVNI,mortos por bala perdida,quem sabe.Talvez tudo, talvez nada.
("Depois de agosto", Ovelhas negras)
"...Tive vontade de sentar na calçada da Rua Augusta e chorar, mas preferi entrar numa livraria, comprar um caderno lindo e anotar sonhos(...)E tudo que eu andava fazendo e sendo, eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo,por dentro da chuva,que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu,E EU ERA. Já li tudo,cara, já tentei macrobiótica, psicanálise, drogas, acumpuntura, suicídio, ioga, dança, natação, cooper, astrologia, patins, marxismo, candomblé, boate gay, ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?Não é plágio de Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma...Fico tão cansada às vezes, e digo pra mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. E fumo,e fico horas sem pensar absolutamente nada: (...) Claro,é preciso julgar a si próprio com o máximo de rigidez, mas não sei se você concorda, as coisas por natureza já são tão duras para mim que não me acho no direito de endurecê-las ainda mais."
(Trechos de Caio F.)

7 de dez. de 2008

PRA FECHAR O DOMINGÃO.

“A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto… Nunca vi um gênio com gosto médio.” Ariano Suassuna